Café da manhã

Honestamente, mais real que o amor é a preguiça. Preguiça de que um dia tudo aquilo que eu vejo não seja compartilhado por alguém, não falo de rede social alguma, caso o termo “compartilhar” agora só sirva para isso. Falo da porra de um café da manhã com alguém sem obrigação nenhuma de falar alguma coisa, sem obrigação de socializar com a pessoa ou mesmo olhar nos olhos sem a indecência de uma expectativa. Não sou inocente algum. É impossível, já que tudo que eu espero é o final da história que começamos dias atrás. Ela só senta lá parada como se eu tivesse que preencher o silêncio e corresponder ao que ela pensa de mim para estarmos ali. Parece que eu quero evitar um avião de cair quando a turbina já explodiu. Impossível. O silêncio, quando não estamos com alguém que nos faça nos sentir confortável, é sufocante. Ainda nem comecei a comer, segundos parecem horas. A final, o que ela quer de mim? Só tenho a mim para dar, qualquer coisa além disso e mando ela, gentilmente, ir se foder. Não aconteceu nada de ruim por assim dizer, é um sentimento apenas, de que estou no lugar errado com a pessoa errada. Só queria comer em paz, mas com alguém do outro lado da mesa. É quase como se você pudesse passar anos convivendo com a pessoa mas nunca realmente conhecer ela, então quando chega o momento de provar a que esses anos serviram (sempre existe esse momento, seja uma experiência ou piada interna), isto já não é mais suficiente para trazer uma memória prazerosa ao seu sorriso. Esse é um sentimento que sempre guardo porque não acho que compartilhei o suficiente ou jamais senti isso por alguém de forma recíproca. Mando ela se foder, nós rimos. Já estou na metade da banana da terra e ovo está uma delícia. Assim como surgiu, tudo aquilo que criei e digeri nesse espaço de minutos some. Eu aguento os problemas dele e ele aguenta os meus, acho. É bom para nós, não é perfeito, não dá, senão estragaríamos, então bom é saber que apesar de eu pensar assim, posso me sentir vulnerável para expressar isso e ainda ter ela ali, essa pessoa. Terminei meu café da manhã.

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