Acho que de certa forma todos aqueles que se machucaram por gostar de alguém são incoerentes ao se expressarem. Todas as palavras que saem de suas bocas são homenagens singelas ao verdadeiro sentimento. Então eis as minhas palavras: é nela em quem penso de forma platônica mesmo após passarmos por uma relação. Se isto for saudade, como suspeito que seja, é um escárnio a tudo pelo passei com ela. É forçar-me a lembrar apenas das coisas boas, como se disso me valesse a dor de reviver os momentos, e até mesmo, quem diria, os sentimentos, quanta ousadia. E o tempo…este parece que nem passa para os que sentem, pois recorro a mesma euforia de algo novo. E pior, me aquece, sim, me aquece. É frustrante! O que me leva a concluir a minha necessidade por afeição, por alguém com quem possa fantasiar futuros românticos. E tudo isso que me faz ficar acordado às 1:40 da noite…tudo isso para que eu não me sinta sozinho, embora esteja.

Tempo

Nos filmes e nos ditados, sempre ouvi que o tempo é capaz de curar tudo. Minha decepção foi perceber que isso era mentira. O tempo é a página onde escrevemos nossa história mas se não estivermos prontos para continuar do último ponto final, a página ficará em branco…simples assim. É preciso ter atitude para escrever e é preciso coragem para escrever sobre o que sentimos pois isso é um ato de protesto, é escapar de um discurso com palavras que talvez sejam esquecidas e levadas pelo vento. É refletir sobre nós mesmos e ter o amparo de um papel, tornámo-nos autores de algo visível e consciente para o outro, mas mais importante, para nós mesmos. É indescritível o sentimento de liberdade que isso gera. Portanto o tempo é um processo de escrita que pode ser uma prisão ou pode ser libertador, cabe à nós decidir.

Acho importante concluir com esse pensamento: não proponho a dualidade de um tempo, mas sim sua fluidez, ele não é um ou outro, ele é tudo ao mesmo tempo agora, ou depois, ou…

Reflexo

Quando ainda tinha a plena concepção de um amor romantizado, li, não sei onde, que amar alguém é ver o mundo através do olhar do outro. Na época, fez muito sentido para mim acreditar que isso me levaria ao amor, mas, hoje questiono a presunção desta frase. Há quem confunda isso com uma empatia a se almejar nas frases mais românticas possíveis mas essas merdas não salvam a diversidade de pensamentos e experiências que formam um outro ser. A complexidade de uma perspectiva vai muito além do olhar. Acontece que ao fazer isso, presumi as lacunas de um ser, sem nem conhecê-lo por mais do que minutos…poderiam ser anos…não importa, não se faz isso. Não precisamos de outra definição de amor para (sobre)viver. Eu não quero isso, quero a realidade. Quero um olhar reflexo, aquele em que basta o encontro dos olhos para saber que fudeu, para ir embora, para ficar, para ir. Mas, infelizmente, isso é a consequência de tanta coisa passada para que possa estar presente. É construção. Não importa o quanto os filmes nos façam acreditar, nem as pessoas que dão sentido ao amor em um sinal de vista, especialmente quando contam a história de como se conheceram para impressionar a si mesmos e a quem quer que ouça, não existe nada à primeira vista. Só existe esperança e muita merda pra passar junto.

Café da manhã

Honestamente, mais real que o amor é a preguiça. Preguiça de que um dia tudo aquilo que eu vejo não seja compartilhado por alguém, não falo de rede social alguma, caso o termo “compartilhar” agora só sirva para isso. Falo da porra de um café da manhã com alguém sem obrigação nenhuma de falar alguma coisa, sem obrigação de socializar com a pessoa ou mesmo olhar nos olhos sem a indecência de uma expectativa. Não sou inocente algum. É impossível, já que tudo que eu espero é o final da história que começamos dias atrás. Ela só senta lá parada como se eu tivesse que preencher o silêncio e corresponder ao que ela pensa de mim para estarmos ali. Parece que eu quero evitar um avião de cair quando a turbina já explodiu. Impossível. O silêncio, quando não estamos com alguém que nos faça nos sentir confortável, é sufocante. Ainda nem comecei a comer, segundos parecem horas. A final, o que ela quer de mim? Só tenho a mim para dar, qualquer coisa além disso e mando ela, gentilmente, ir se foder. Não aconteceu nada de ruim por assim dizer, é um sentimento apenas, de que estou no lugar errado com a pessoa errada. Só queria comer em paz, mas com alguém do outro lado da mesa. É quase como se você pudesse passar anos convivendo com a pessoa mas nunca realmente conhecer ela, então quando chega o momento de provar a que esses anos serviram (sempre existe esse momento, seja uma experiência ou piada interna), isto já não é mais suficiente para trazer uma memória prazerosa ao seu sorriso. Esse é um sentimento que sempre guardo porque não acho que compartilhei o suficiente ou jamais senti isso por alguém de forma recíproca. Mando ela se foder, nós rimos. Já estou na metade da banana da terra e ovo está uma delícia. Assim como surgiu, tudo aquilo que criei e digeri nesse espaço de minutos some. Eu aguento os problemas dele e ele aguenta os meus, acho. É bom para nós, não é perfeito, não dá, senão estragaríamos, então bom é saber que apesar de eu pensar assim, posso me sentir vulnerável para expressar isso e ainda ter ela ali, essa pessoa. Terminei meu café da manhã.